A casa como suporte da vida real
- Érica Marina

- há 13 horas
- 3 min de leitura
e o que mudou na forma de morar
Depois de um tempo em pausa por aqui — motivado por uma fase muito especial da minha vida, com a chegada do meu filho e os primeiros anos mais dedicados à maternidade — retomo este espaço com um olhar inevitavelmente transformado. Não apenas pela experiência em si, mas pelo que ela revela no cotidiano: a forma como habitamos a casa, como usamos os espaços e, principalmente, o que esperamos deles.

Nos últimos anos, muito se falou sobre mudanças na forma de morar. E, de fato, elas existem. Mas, mais do que novas tendências ou soluções estéticas, o que tenho observado — tanto na prática profissional quanto dentro do meu próprio lar — é um deslocamento mais profundo: a casa deixou de ser apenas um lugar bem resolvido visualmente para se tornar, cada vez mais, um suporte real da vida como ela é. E isso muda bastante coisa no modo de pensar o projeto juntamente com o cliente.
Se olharmos para as previsões recentes de comportamento, como as leituras da WGSN para 2026, vemos um movimento claro nesse sentido. Perfis de consumidores que buscam rotinas mais sustentáveis, que valorizam pequenas conquistas do dia a dia e que questionam a cultura do excesso apontam para uma vida mais possível, menos idealizada. Quando trazemos esse olhar para dentro de casa, o impacto é direto.
Na prática, a casa deixa de ser estática.
Ela passa a se reorganizar ao longo do tempo — e, muitas vezes, ao longo do próprio dia.
No meu apartamento, por exemplo, a bancada da cozinha, pensada para o preparo dos alimentos, hoje frequentemente acolhe uma torre montessoriana encostada a ela, permitindo que meu filho participe da rotina de forma ativa. O que antes era apenas uma superfície de apoio se torna também um ponto de encontro.
O sofá, que poderia ser entendido como um lugar de descanso ou de assistir televisão, passa a ser um espaço de leitura, de presença, de acompanhar brincadeiras que acontecem no tapete à frente. Um puff-baú, escolhido de forma despretensiosa quando me mudei para o apartamento, se torna essencial como apoio e armazenamento de brinquedos. Armários bem dimensionados — que sempre priorizei — se mostram ainda mais necessários diante da quantidade de objetos que acompanham a rotina de uma criança pequena. O banheiro, que em um primeiro momento precisou acomodar uma banheira infantil, hoje já se adapta novamente — com um simples tapete antiderrapante dentro do box, acompanhando uma nova fase.
Essas transformações não são exceções. Elas são a regra.
Isso também altera a forma como percebemos o valor de algumas decisões de projeto. Elementos que poderiam parecer secundários passam a ganhar protagonismo com o uso. Ao mesmo tempo, os ambientes deixam de ter funções rígidas e passam a ser melhor vividos. Eles se constroem ao longo do tempo. O quarto do casal, por exemplo, ganha um novo significado. Se antes já era pensado como um espaço de descanso, hoje se consolida como um verdadeiro ponto de pausa dentro de uma rotina mais dinâmica — um lugar de recomposição.
Essa percepção amplia algo que, na minha prática profissional, já vinha se desenhando: a casa precisa sustentar não apenas funções, mas ritmos. Sempre priorizei a funcionalidade à estética. Hoje, essa escolha se confirma — mas sem abrir mão da beleza. Ela precisa caber nesse dinamismo.
E isso nos leva de volta às tendências que observamos hoje. Quando se fala em uma busca por bem-estar mais realista, por rotinas mais gentis e por uma valorização dos pequenos momentos, estamos falando, em última instância, de espaços que acompanham essas escolhas. Espaços que não exigem que a vida se ajuste a eles — mas que se deixam ajustar pela vida. Nesse contexto, o papel do projeto se fortalece.
O briefing se torna ainda mais essencial, porque é nele que conseguimos entender não só o gosto, mas a rotina, as fases e os valores de cada cliente. Projetar deixa de ser apenas organizar elementos no espaço e passa a ser estruturar uma base capaz de absorver mudanças ao longo do tempo. Mais do que nunca, projetar é antecipar o uso — inclusive aquele que ainda não é completamente previsível.
Talvez o que esteja mudando não seja apenas a forma de morar, mas a forma de olhar para o morar. O espaço residencial deixa de ser um cenário pronto e passa a ganhar significado no uso. E esse uso precisa de espaço — precisa, de alguma forma, ter sido previsto.
O projeto deixa de definir um momento e passa a acompanhar a vida.
Precisando de poesia em sua casa, estou à disposição.
Érica Marina Carvalho de Lima
Arquiteta, Designer de Interiores e Light Designer




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